A norma ISO 9001, amplamente reconhecida como referência internacional para os sistemas de gestão da qualidade, tem sido periodicamente revista com o objetivo de acompanhar a evolução dos contextos organizacionais. Após a última revisão, em 2015, que introduziu a abordagem baseada no risco e reforçou o papel das partes interessadas. Está prevista para 2026 uma nova revisão da norma, esta visa assegurar a relevância da norma face aos desafios atuais, como a transformação digital, a sustentabilidade e a crescente complexidade das cadeias de abastecimento.
A revisão justifica-se pela necessidade de alinhar a norma com novas exigências do mercado global. Elementos como a digitalização dos processos, o impacto ambiental, o reforço da responsabilidade social, o fortalecimento da governança corporativa e a gestão estratégica do risco tornaram-se hoje fatores incontornáveis. Mantendo a estrutura de alto nível (Anexo SL), a nova versão deverá reforçar temas como o contexto organizacional, a gestão da informação documentada e a integração com outros referenciais normativos, como a ISO 14001 e a ISO 45001.
Entre as principais tendências destaca-se a provável incorporação explícita de práticas ESG, com requisitos que incentivem a adoção de indicadores ambientais, sociais e de governança. Espera-se, assim, que os objetivos de qualidade venham a estar mais claramente articulados com metas de sustentabilidade, promovendo uma atuação mais responsável, ética e transparente por parte das organizações.
A transformação digital será outro foco central, com ênfase na automação de processos, na utilização de inteligência artificial, análise avançada de dados, como big data e blockchain. A digitalização de fluxos documentais permitirá uma gestão mais eficiente, promovendo decisões baseadas em dados, deteção precoce de não conformidades e maior rastreabilidade.
A nova versão deverá ainda reforçar a resiliência organizacional, com exigências ao nível do controlo das cadeias de abastecimento, qualificação e monitorização de fornecedores, bem como a definição de planos de contingência para enfrentar disrupções. Serão incentivadas práticas que assegurem a continuidade das operações e a capacidade de adaptação em contextos de incerteza.
O papel da liderança será ampliado, exigindo um maior envolvimento da direção na definição de políticas, no acompanhamento de resultados e no fomento a práticas de evolução constante e adaptação organizacional. Além disso, o envolvimento das partes interessadas, incluindo clientes, colaboradores e parceiros, será reforçado, com ênfase na ética e integridade nas decisões estratégicas e operacionais. Por fim, antecipa-se uma maior orientação para o desempenho, com a definição de KPIs alinhados aos objetivos estratégicos, o uso de ferramentas digitais para apoiar as auditorias e a implementação de mecanismos mais eficazes de avaliação da conformidade. A utilização de plataformas digitais poderá reduzir o tempo e os custos de certificação, mantendo a fiabilidade e a integridade dos processos.
Mais do que uma atualização técnica, a revisão da ISO 9001 prevista para 2026 representa um novo paradigma para a gestão da qualidade. O futuro da norma será marcado por uma abordagem transversal, proativa e fortemente integrada com os pilares ESG, a inovação tecnológica e a resiliência organizacional. Preparar esta transição constitui, por isso, uma oportunidade estratégica para repensar processos, envolver equipas e reforçar a competitividade sustentável das organizações.
Bárbara Martins, XZ Consultores